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Inconstância

                   Sentada na varanda do apartamento, com um cigarro entre os dedos e uma taça de vinho tinto, Irina se lembrava do dia em que sua amarga personalidade afastou alguém que ela só queria por perto. Ela lembrava com os olhos marejados da última conversa que tiveram e do beijo com sabor de despedida que ele meio irritado e claramente triste dera nela, passando dos lábios dela para o seu o sabor da culpa.

                Foi a última vez que ela sentiu o calor dele. Não o calor de um homem, mas o calor do homem que ela amava. Agora ela tinha absoluta certeza que ele estava feliz com outro alguém e que só lembraria-se dela como algo que passou. Ele por sua vez, ainda lembrava-se do jeito instável e inconstante que ela tinha de ama-lo, os olhos dela que sempre fugiam quando ele queria entrar e toda aquela amargura.

                Ela questionava se ele ainda lembrava-se dela, como lembrava e se isso o fazia sentir saudade. Irina sabia que não, a sua instabilidade e o medo de se magoar eram tão latentes que mesmo quando os olhos dele diziam tudo, ela fingia não ver.  Então, pegou o telefone e ligou para ele, uma voz feminina atendeu risonha. Com a voz embargada Irina pergunta por ele, a voz solícita vai chamá-lo e quando ele pega o telefone, como se soubesse quem estava do outro lado da linha pergunta:

- Aconteceu alguma coisa?

- Não.  Eu liguei só para saber se você se lembraria de mim.

- Por que eu não lembraria?!

- Por que eu não gostaria que você lembrasse.

- Por quê?

- Eu não fui o melhor de mim para você.

- Foi o suficiente.

- Você me amou?

- Sim, com todos os defeitos absolutamente sim. – disse ele agora meio envergonhado, com a voz meio sussurrada.

- Por quê? – perguntou ela afogando o choro em um trago.

- Se eu soubesse a razão teria me poupado muito sofrimento.

                Ao ouvir isso ela desliga e chora, constatando que hoje ele não a quer mais. E, talvez nem ela quisesse voltar. Mas, dizem que quanto mais o amor machuca mais profundo ele fica. Se isso for verdade – e para ela, era sim – ele jamais seria trocado ou esquecido. Então, ela liga de novo, dessa vez ele atende:

- Você ainda se lembra do que chamou a sua atenção em mim?

- Quanto a isso, outra pessoa já me fez esquecer.

- Eu insisto em sofrer, mas saiba que só desejo o melhor para você… Talvez eu encontre alguém que me faça esquecer o sabor dos teus lábios, de tudo que vivemos. Enquanto isso me perdoe por continuar a me arrepender do que fiz a nós.

                E ele desliga dessa vez, e fica ao lado do telefone por mais alguns minutos. Ela não ligou de volta. Dessa vez ele sabia que ela nunca mais o procuraria, e nesse momento  ele sentiu saudade da inconstância, do medo, e até mesmo de como o sorriso dela era como uma música contagiante e que os lábios dela sempre davam vontade de beijar. Lembrou que quando ela se sentia vulnerável o abraçava, e que quando se sentia sozinha sentava na varanda olhando o azul do céu, com a cor da pele contra a luz do sol e o cabelo dançando no rosto dela. E, nesse momento fazia alguma loucura. Ele sorriu pensando nela.

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