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À bordo do navio turco

Lá vai ele descendo cantarolante pela Beira-mar, rumo aos ecos do seu som, assoviando sua erudição e reverenciando ao vento os aplausos esperados no fim do concerto. Era o melhor violinista da pacata ilha Lusa, e sabia tanto disso quanto sua modéstia permitia.

Lauro, que nesse momento é aclamado por seus colegas da orquestra estadual, revive mentalmente a desafiadora audição, as broncas por indisciplina e até, as críticas pela sua auto-confiança exagerada. Ri bobo enquanto guarda o violino, acariciando-o pensava: “O que seria de mim, se fosse não fosse você?”

Já tinha quase 30 anos, alguns filhos de um casamento com uma esposa zangada, que ainda mais se enfurecia com a vida boemia que ele levava. Mas, como essa boemia era importante a sua inspiração! Começara a sua vida artística ainda criança, e logo, descobriu que levava jeito e então a prosperidade veio. Quem diria que um menino, esmirrado do nordeste brasileiro poderia chegar tão longe com musica clássica?! Todos nesse Maranhão de meu Deus se perguntavam. Mas, quem disse que nordeste é só baião?!

Certa tarde, já dando boas vindas à noite com seu assovio “romântico”, ruma para o bar da esquina para tomar um gole da santa cachaça que dia após dia espantava a sua timidez desconhecida. Alguns passos a mais pela beira-mar , então, é pego e levado para o navio Aytac, logo percebeu que ninguém o entendia e espantado constata: “ Agora escravo, sou pai sem filhos oceano adentro. Sem alegria para ao menos um assovio.” Quando desesperado aos prantos, alguns homens com faces severas e assustadoras vieram, o pegaram pelo braço e o arrastaram ate a cabine do comandante. Este era um gordo fétido, igualmente assustador. Com poucas palavras jogou na mão de Lauro a única coisa que naquele cenário ele reconhecia, um  Stradivarius. Era como dar aquele músico desesperado ‘vida amadeirada’. Começou a tocar, lembrou dos filhos, da preta velha tão amada, da boemia e dos aplausos. Sorriu faceiro em meio ao medo.  Vivaldi foi sua companhia por um tempo, para ser mais exato, foram 30 dias de horas infindáveis simplesmente tocando para aquele comandante.

Magro, maltrapilho e com um Stradivaius mal cuidado debaixo do braço foi largado no mesmo lugar que foi pego, em meio a soluços chorosos de dor, sede e fome, ele volta para casa. Nunca entendeu o porque daquele cárcere, nem mesmo porque saiu vivo de lá, mas agradeceu a paixão do gordo comandante por musica clássica, pelo seu som e até pela experiência. Dali em diante, foi pai severo de filhos que se formaram e de outros que rumaram a vida artística. Patriarca de uma família com longas linhagens boemias, mas sempre lembrado pela admiração que despertava dos ouvidos mais  sensíveis e mais distantes mundo a fora.


                                                              

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