Uma noite como outra qualquer…
Eram por volta das 18:45 de uma noite como outra qualquer. Ela chegava em casa cansada, colocava as chaves no balcão da cozinha e, então começa a fazer seu rastro de bagunça rumando ao banho revigorante de pós dia estressante. Depois de muito tentar na frente do espelho manter o cabelo em um coque arrumado, se deu por satisfeita com metade do cabelo preso e, entrou no chuveiro como quem diz “tanto faz”.
Com metade do cabelo molhado, vestindo uma camisa velha do Raul Seixas herdada da mãe que dizia “eu nunca cometo pequenos erros quando posso causar terremotos” e, usando um short rosa que tinha quase a mesma idade que ela, se sentou no sofá, ligou a televisão e encostou a cabeça. Logo estava deitada, desajeitada considerando mais uma vez largar tudo e viver de PJ’s e amor incondicional.
Sorrindo suave se lembrava dos planos, da conversa meiga, de alguns detalhes pequenos, de como tudo começou. Era como se nunca antes tivesse existido um romance como o dela, era único e inesquecível. Ele tinha um jeito que sabia consolar, falava coisas erradas na hora errada e, sabia sutilmente se desculpar. Ela, no entanto, era inegavelmente submissa as vontades dele, se ficava zangada com alguma coisa, logo esquecia e voltava tudo ao normal. Agora o sorriso era meio constrangido.
No sofá desajeitada e risonha, ela sentia falta ate das coisas que a deixavam triste nele. Alias, ela sempre sentia falta da risada meio contida, das opiniões indiscutíveis, da delicadeza, e até, da maldita ironia em tudo. Era esquisito, mas não conseguia dormir sem lhe dizer ‘boa noite’. Era como se o dia só terminasse quando falava com ele. Pegou no sono ali mesmo, no sofá, com a TV ligada e uma revista cientifica aberta do lado. Já acordou com o barulho das chaves e a porta abrindo. Droga! Correndo, derrubando as coisas, ela foi colocar alguma coisa para comer e arrumar a bagunça no quarto antes que ele visse.
Porém, como ela não conseguia fazer as coisas direito, esqueceu a TV ligada na sala e deixou uma mancha na almofada. Ele chegou logo dizendo: “Honestamente, depois de tanto tempo tu ainda achas que consegue esconder tua bagunça de mim?!” Dessa vez, só por que é o final da estória, ele riu e foi falar com ela no quarto, que escondia o rosto no travesseiro segurando uma grande gargalhada. “Peguei no sono no sofá, pensando em como tu não eras chato quando tudo começou”. Eles riram. Então, ela percebeu que nada podia ser melhor que aquilo. Por que mesmo depois de um longo dia estressante a única coisa que valia a pena, era ouvi-lo reclamar de tudo.